O caso Destiny – por Julia Santos

A pequena vizinhança menos urbanizada da cidade de Los Angeles estava calma naquela noite calorosa, os poucos postes de luz iluminavam as calçadas ajudando aos poucos que passavam enxergarem o que estava a sua frente, algumas famílias se reuniam em suas varandas para admirarem a bela lua cheia que se destaca no céu juntamente a várias estrelas ao seu redor, mas as pessoas que moravam na casa 349, no finalzinho da pequena rua não queriam saber de sentarem-se juntos e muito menos de observarem a lua cheia.
– Qual o seu problema Natasha? – Seu marido, Rick, gritava puxando alguns fios de seus cabelos na tentativa de se acalmar, mas não estava resultando em nada, apenas machucando-o.
– Não temos escolha Rick, já estava difícil o bastante para nós dois, agora com mais uma boca para alimentar ficará impossível – A mulher ruiva chorava sentada ao pequeno sofá já desgastado devido a muito uso, um copo de água com açúcar estava ao seu lado já pela metade, o nervosismo estava nítido pelos ares daquela casa.
– Não ganhamos dinheiro o suficiente, mas vamos dar um jeito de Destiny sobreviver conosco querida – O homem implorava para que a mulher mudasse de ideia, seus olhos transbordavam esperança, mas Natasha já havia se decidido.
– E nós sobreviveremos como Richard? – Perdendo a pouca paciência que lhe restava, Natasha berrou com seu marido enquanto lágrimas de nervoso rolavam por seus olhos, mas não era apenas ela que chorava.
– Ótimo, você acordou nossa garotinha – Rick suspirou pegando a pequena e frágil bebê que antes dormir em um pequeno berço improvisado ao lado de onde seus pais discutiam seu futuro, aos poucos Rick acalmou-a colocando-a novamente para dormir no pequeno berço.
– Cometemos um erro achando que iríamos dar conta – Suas palavras saíram em uma frieza que Rick jamais entenderá – É nossa única opção, eu estou sem trabalho e você não ganha muito apenas auxiliando máquinas querido, iremos morrer de fome se continuarmos como estamos.
O tempo havia virado dentro da pequena casa rústica, Rick tentava entender como a mulher doce que havia se casado havia mudado tanto em poucos anos, ele havia prometido-a anos de alegria, não havia prometido riqueza e muito menos pobreza, havia prometido que sobreviveriam juntos em seus votos, mas para a ruiva que tanto amava, sobreviver não bastava.
– Onde você espera que possamos deixa-la? – A voz amarga do marido de Natasha demonstrava o quão afetado ele estava com toda situação, mas sabia que se ela ficasse seria pior, cresceria sendo rejeitada pela própria mãe sem nem entender o que havia feito de tão errado para ser tratada daquele jeito, quando que apenas o que havia ocorrido fora o fato da pequena ter nascido.
– Não sou tão insensível quando você pensa Rick, deixaremos-a no orfanato “Happy Ending”, o melhor que conseguiremos por essa região – Natasha se concentrava na estrada enquanto proferia as palavras friamente como se não se importasse que estivesse largando uma vida da qual havia gerado em um lugar onde poderiam haver pessoas mais maldosas do que a mesma estava sendo.
– Espero que ela tenha realmente um final feliz – Rick sorria ironicamente para a mulher que tanto amava, mas que no momento conseguia apenas sentir raiva.
O homem que sempre desejará ter filhos e passar seu legado adiante estava com a cabeça cheia de preocupações, tratariam sua bem naquele desconhecido local? Ele poderia vê-la novamente em algum momento de sua vida? A mulher com quem havia se casado realmente era a mulher de sua vida? As perguntas eram tantas que sua cabeça começou a pesar mais do que seu corpo, com os maxilares travados, ideias suicidas passavam por sua mente, ninguém precisaria sofrer, a rapidez com que partiriam não deixaria com que isso acontecesse, ele pensando enquanto alternava seus olhares para ambas as janelas do carro, vozes indistinguíveis tomavam conta de sua consciência que já não estava tão sã quanto há alguns minutos atrás, suas mãos começaram a apertar a pequena cuja permanecia em seus braços fortes desde o momento que haviam saído da pequena casa número 349.
– Seria bem mais fácil se nada disso estivesse acontecendo – Rick murmurou, sua voz mais rouca do que o normal causou arrepios em Natasha que apertou o volante com ambas as mãos não sabendo de onde o tom de voz desconhecido do marido havia saído, não parecia com a voz que ouvirá todos os dias durante anos.
– Sim, mas não temos escolhas Rick, já está decidido – Seus cabelos ruivos voavam a medida que aumentava a velocidade do carro, queria acabar com aquele momento tanto quanto ele, era orgulhosa demais para admitir que talvez haveriam outras opções para que pudessem ficar com a pequena Destiny, mas aquela escolha era a que estava em sua cabeça há muito tempo e era a decisão que iriam executar naquela noite, pelo menos era isso o que Natasha esperava que iria acontecer.
– Você escolheu por si mesma, agora estou escolhendo por mim – Os olhos escuros de Rick nunca haviam ficado tão pretos como naquele momento, Natasha olhou para seu marido de relance com as sobrancelhas franzidas não entendendo o que ele estava realmente querendo dizer com suas frases que para ela eram desconexas, mas que na mente insana de Rick faziam todo sentido.
Os minutos seguintes se passaram calmamente, silenciosamente, Rick havia parado de resmungar coisas que Natasha não conseguia entender,mas sua cabeça ainda estava sendo tomada pelas vozes das quais nunca haviam sido apresentadas para o mesmo, não estava consciente de suas ações, de suas palavras e muito menos de suas ideias suicidas que aumentavam em seus pensamentos a cada momento.
A ponte mais famosa da cidade estava á apenas poucos metros de distância do pequeno e simples carro cinza onde cabiam apenas duas pessoas, Natasha franziu as sobrancelhas enquanto tentava diminuir a velocidade do veiculo para passar pelo nevoeiro que havia em sua frente, mas o freio não estava funcionando havia algum tempo, mas apenas naquele momento a ruiva havia notado, Rick se mantinha calmo, um sorriso sombrio no rosto como se soubesse o que iria acontecer nos próximos segundos, e ele realmente sabia, as vozes em sua cabeça haviam planejado tudo em sua mente, ele apenas deveria escuta-las e obedece-las e como uma pessoa fraca, sem conexão com o mundo espiritual, sem nenhuma pequena crença e cercado de demônios interiores, Rick foi pego pela escuridão, não era o mesmo que estava ao lado de Natasha durante o longo caminho que faziam com o pequeno veiculo.
Com as mãos fortemente grudadas ao volante Natasha tentava desesperadamente fazer com que o freio funcionasse, sua feição estava aterrorizada, as pequenas gotículas de lágrimas se formavam no canto de seus olhos, mas quando o marido colocou as mãos no volante atrapalhando-a, ela finalmente havia percebido seus olhos mais escuros e no momento soube que algo estava muito errado, implorando por ajuda, Rick apenas lançava-lhe um sorriso sombrio, com uma cotovelada no nariz Natasha desmaiou de tanta dor por já ter o nariz quebrado em sua infância, para sua sorte não estaria consciente quando o acidente ocorresse.
“Notícias urgentes, noite passada a ponte das Bellas águas foi cena de um dos acidentes mais terríveis da pequena região menos urbanizada de Los Angeles cujo houveram três vítimas, Natasha Ross, Richard Ross e sua filha cuja está desaparecida, vizinhos do casal alegam que a pequena garotinha cujo nome não foi identificado estava com eles quando saíram as 22:20 de sua residência, especialistas alegam que o carro estava em perfeito estado, nenhuma peça fora do lugar, nada fora do comum. Esperaremos mais notícias sobre o casal que no momento estão sendo transportados para o hospital central da cidade e rezemos para que a pequena de apenas três meses seja encontrada com vida.”

 

TEXTO POR JULIA SANTOS

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